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Morreu na manhã deste sábado (2), no Rio de Janeiro, aos 85 anos, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar.
Fundador do jornal Movimento, ele deixa um legado marcado pelo rigor jornalístico, pela coragem política e pela construção de uma imprensa comprometida com a verdade e com o interesse público.
Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua carreira em veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade de suas reportagens e pela profundidade de suas análises. No entanto, foi na imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.
Durante a ditadura militar (1964-1985), quando a censura e a repressão limitavam drasticamente o jornalismo, Raimundo integrou uma geração que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e compromisso democrático.
Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos pilares da imprensa alternativa brasileira. Sob sua liderança, o veículo assumiu papel decisivo na denúncia das arbitrariedades do regime e na construção de uma narrativa crítica em defesa da democracia.
A ideia surgiu depois de seu rompimento com Fernando Gasparian, dono do jornal Opinião. Raimundo discordava da tentativa de aproximação com o governo Geisel, que prometia uma abertura “lenta, gradual e segura”. Para ele, aquela política não atendia aos interesses populares.
Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país.
Resistência sob censura
A atuação de Movimento se deu sob intensa repressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em muitas edições, os espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.
Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como ferramenta de transformação social. Sua trajetória foi marcada pela disciplina, pelo compromisso com os fatos e por uma postura intransigente em defesa da democracia.
Legado intelectual
Em uma fase posterior, Raimundo criou o projeto Retratos do Brasil, voltado à interpretação profunda da realidade nacional, reunindo reportagens extensas e análises estruturais do país.
Um legado que permanece
Raimundo Rodrigues Pereira deixa uma obra que ultrapassa sua produção individual. Sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil.
O jornal Movimento permanece como símbolo de um tempo em que fazer jornalismo era um ato de coragem — e como referência permanente para todos que acreditam na imprensa como instrumento de liberdade e transformação social.
Lula lamenta morte
O presidente Lula lamentou a morte de Raimundo.
Em uma publicação nas redes sociais, o presidente ressaltou o papel do jornalista no combate à ditadura: “Mesmo tendo sido perseguido e preso pela ditadura militar, nunca deixou de lutar pela democracia e pela liberdade de imprensa. E, o que é mais importante: nunca se calou”.
Pioneirismo e liderança no jornalismo
Marcelo Auler, conselheiro da ABI, destacou o papel histórico e humano do jornalista: “Raimundo Rodrigues Pereira foi um guerreiro e empreendedor da informação, do jornalismo, mas acima de tudo da Democracia, com ‘D’ maiúsculo”, afirmou.
Movimento e a resistência sob censura
Auler recordou sua convivência pessoal com Raimundo naquele período e destacou o papel do jornal como espaço de enfrentamento ao regime: “Em plena ditadura, nos anos 70, criou o jornal Movimento, uma das tribunas de resistência aos ditadores civis-militares”, disse.
Segundo ele, o jornal teve uma trajetória marcante e persistente: foram 334 edições semanais, a maioria sob censura, mantendo-se em circulação até 1981.
Movimento não era apenas um veículo de informação, mas um símbolo de enfrentamento político e de defesa da liberdade de expressão.
Empreendedorismo editorial e compromisso com o Brasil
Após o fim da ditadura, Raimundo seguiu investindo em projetos jornalísticos voltados à compreensão do país. Auler relembrou a criação do Retratos do Brasil, em 1988, um jornal diário dedicado à análise profunda da realidade nacional, do qual ele próprio participou.
A iniciativa reforça o perfil de Raimundo como um empreendedor da informação — alguém que não apenas escrevia, mas criava estruturas editoriais comprometidas com o debate público qualificado.
Amizade, caráter e legado
Em seu depoimento, Marcelo Auler também ressaltou o lado humano de Raimundo: “Foi mais do que um chefe. Um amigo”, afirmou.
Ele destacou ainda a dimensão da perda: “É uma grande perda para todos os jornalistas, mas também para o Brasil democrático”.
Ao defini-lo como “guerreiro da democracia”, Marcelo Auler sintetiza o sentimento de uma geração que viu no jornalismo não apenas uma profissão, mas uma missão.