Indústrias do ABC paulista sentem queda na demanda e já demitem

A indústria de materiais de transporte instalada no Estado de São Paulo demitiu mais que contratou em fevereiro e o saldo foram 647 novos desempregados. Um ano antes, o cenário era oposto, com as admissões superando as demissões e criando 1.169 vagas, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Isso aconteceu porque, no ABC paulista, polo que reúne as montadoras e seus fornecedores, as demissões normais que movimentam as salas de homologações dos sindicatos foram acompanhadas por dispensas provocadas por queda de demanda nas fábricas. O movimento ainda é incipiente e preocupa pouco os demitidos, alguns dos quais já arrumaram um novo emprego.

Em todo o país, houve desaceleração na criação de empregos na indústria de transformação nacional em fevereiro – o setor criou 19.609 postos de trabalho, número que representa queda de 63% em relação às vagas abertas no mesmo mês de 2011. Só o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, no ABC, estima em 75% o aumento no número de demissões no segundo mês do ano em relação a fevereiro do ano passado.

O controlador de máquinas Fernando Gaspar estava empregado há cinco anos em uma empresa de Mauá quando foi demitido, no dia 15 do mês passado. A fábrica, que produz bancos para carros da General Motors, está enxugando o quadro devido à queda na demanda. “Na verdade começou em 2009, depois da crise. O que eles estavam fazendo é demitir 40 e contratar 30. Mas isso se intensificou nos últimos meses”, afirma Gaspar, que agora vai tentar arrumar emprego em outras empresas da região para conseguir terminar a faculdade de logística, que trancou ano passado. “Tenho experiência, sou novo. Não dá para mudar agora, tem que ir aonde o mercado pede”, diz ele.

A dispensa de Gaspar ajudou a compor o aumento estimado das demissões registradas no Sindicato dos metalúrgicos de Santo André e Mauá. A região tem indústrias ligadas a autopeças, que abastecem as grandes montadoras instaladas nos municípios vizinhos. Como uma queda na produção dessas empresas afeta a cadeia, a diminuição da atividade sentida um mês antes soa como uma alarme para um possível aumento das demissões. Em janeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de veículos automotores em São Paulo caiu 34,6% na comparação com janeiro do ano passado.

Foi justamente quando começaram a faltar encomendas para produzir a dobradiça do porta-malas do Celta, que o também operador de máquinas Juliano Fernandes percebeu que a demissão estava próxima. “O meu trabalho era muito específico. Só eu usava a máquina para aquela peça”, diz. Ele conta que no fim do ano passado a diminuição das encomendas o levou a mudar de funções, como ajudar na produção de outras peças, fato que nunca havia acontecido desde que foi admitido um ano antes. Mais tarde, em janeiro, Fernandes ficou parado 15 dias por falta de trabalho. “Quando voltei sabia que logo seria mandado embora”, diz ele.

Depois de terminar o vínculo com seu primeiro emprego com carteira assinada, Fernandes agora planeja ajudar o pai na administração de uma pequena mercearia, no Jardim Zaíra, bairro da periferia de Mauá, enquanto não se recoloca novamente no mercado formal. Com os R$ 930 mensais que ganhava na fábrica, o jovem de 19 anos lamenta não ter ficado mais tempo empregado. “Comprei uma moto, mas ainda faltam 20 prestações de R$ 300 para pagar. Mas agora vou fazer curso, correr muito atrás para conseguir um novo trabalho na área.”

Apesar das demissões, somando todos os setores da economia, o país registrou saldo de 150,6 mil vagas a mais em fevereiro. E o auxiliar de serralheria Wellington Santos da Silva viveu os dois lados da moeda no mês, ao conseguir emprego no dia seguinte à sua demissão. Em seu quarto mês em uma empresa que fabrica contêineres, Silva sofreu um acidente com uma das chapas de aço com que trabalhava. Quatro meses mais tarde, recuperado, voltou ao serviço. Um ano depois de sua volta, tempo em que acaba a estabilidade de um trabalhador que tirou licença médica, o auxiliar recebeu a notícia de que seria desligado do quadro de funcionários. “Fizeram a mesma coisa com um colega que também se acidentou. É política da empresa”, afirma.

O pai, que ensinou a profissão a Silva quando ele ainda era adolescente, também foi o responsável pelo rápido fim de seu desemprego ao abrir uma empresa. “Ele era informal, mas como aumentaram as encomendas nos últimos meses decidiu-se pela regularização. Agora trabalho em família e com carteira assinada.”