
Entre os dias 1 e 5 de abril, a Cinemateca Brasileira apresenta a mostra TRABALHO EM TRANSE. A seleção de filmes de ficção e documentários oferece a oportunidade de refletir sobre as importantes transformações que mudaram a nossa civilização e as relações de trabalho em um curto espaço de tempo. Através da obra de realizadores de diferentes localidades do mundo, veteranos e novatos, e suas diferentes propostas de abordagem fílmica, poderemos nos deter em processos que a também nova vivência da passagem do tempo fragmenta.
As sessões da mostra têm entrada é gratuita e os ingressos são distribuídos uma hora antes de cada uma na bilheteria da Cinemateca.
Palestras
Para além das telas, a mostra traz palestras de Paulo Arantes, Ruy Braga, Ricardo Antunes e Carlos Augusto Calil, se consolidando como um território de reflexão crítica ao converter o cinema em ponto de partida para o debate público. A presença desses intelectuais e pensadores transforma as sessões em espaços onde as questões do trabalho — centrais nas obras exibidas — ganham novas camadas de análise. Ao promover esse encontro entre a produção cinematográfica e o pensamento crítico contemporâneo, a mostra reafirma o cinema como uma ferramenta essencial para compreender as tensões e os movimentos da classe trabalhadora na atualidade.
Veja abaixo as sessões seguidas de palestras:
- 01/04 | 18h
NÃO ESPERE MUITO DO FIM DO MUNDO
Sessão seguida de palestra com Paulo Arantes. - 02/04 | 20h
SESSÃO DUPLA | LIBERTÁRIOS e CHAPELEIROS
Sessão seguida de palestra com Carlos Augusto Calil. - 03/04 | 19h
NOMADLAND
Sessão seguida de palestra com Ruy Braga. - 04/04 | 19h
VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI
Sessão seguida de palestra com Ricardo Antunes.
Todas as palestras terão interpretação em Libras e serão transmitidas no YouTube da Cinemateca Brasileira.
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“(…) se os jovens, homens e mulheres, tieverem sorte,
o seu trabalho será precário. Se tiverem privilégio,
serão servos. Porque pior do que a servidão,
é o desemprego completo.”
Ricardo Antunes
(sociólogo do trabalho)
TRABALHO EM TRANSE, o título dessa mostra, parodia e homenageia o cineasta Glauber Rocha em seu clássico e profético, Terra em Transe. Em seu filme ele refletiu a voragem das trágicas contradições sociais e políticas, que tomaram o imaginário país sul-americano de Eldorado (podia até mesmo ser o Brasil…) nos conturbados anos 60.
Naquela mesma década, quase duas décadas após a 2ª guerra mundial, se iniciavam importantes transformações em nível mundial, como resposta a uma nova crise do capitalismo. Mas elas só aterrisariam definitivamente no Brasil, vinte anos depois.
Ricardo Antunes, autor da citação do início deste texto, costuma dizer que se Chaplin fosse filmar Tempos Modernos hoje, ele certamente não utilizaria como cenário a linha de montagem fordista dos anos 20 e 30 do século passado, mas sim a de uma fábrica de celulares.
Do ponto de vista cinematográfico não haveria perda maior, pois as linhas de produção ditas pós-industriais não possuem o menor interesse visual, além de prescindirem cada vez mais do trabalho vivo. Um operário que foi ativo no século XX me disse que, ao entrar em uma fábrica no início deste século, teve a sensação de um inóspito espaço ocupado por gigantescos equipamentos robotizados, no qual os poucos operários pareciam técnicos liliputianos.
Estamos vivendo uma época de devastação de um tipo de trabalho que muitos de nós conheceram e que, apesar de envolver constrangimentos e alienação, era regulamentado por legislações que foram produto das lutas sindicais e dos movimentos de esquerda ao longo dos dois últimos séculos.
Porém o avanço tecnológico das forças produtivas ocorrido a partir de meados do século passado, trouxe consigo profundas mudanças na vida dos trabalhadores contemporâneos.
Nos países do sul global, os direitos trabalhistas foram varridos, o desemprego cresceu butalmente e, com a atomização dos trabalhadores transformados em “empreendedores de si mesmos”, o movimento sindical viu as suas bases desaparecerem.
Os laços de solidariedade, construídos no interior das fábricas, não mais foram possíveis com a precarização e a intermitência dos empregos e colocaram um novo desafio para os que pretendem se organizar e reverter um quadro sombrio. Esta nova etapa da humanidade, hegemonizada pelo capital financeiro e suas crises de largo espectro, atirou e segue atirando milhões de pessoas para um futuro sem qualquer horizonte, oferecendo-lhes como alternativa, serviços ocasionais, condições de trabalho, há poucos anos, inconcebíveis e péssima remuneração. Os direitos previdenciários e de saúde, foram quase que suprimidos.
O quadro geral revela uma classe trabalhadora mais complexa e fragmentada. No passado, ela foi preponderantemente masculina, e a diferenciação se dava entre qualificados (em geral homens brancos) e não qualificados. Hoje ela é tanto masculina quanto feminina e é acentuadamente marcada pela presença de indígenas, imigrantes e negros.
Mas os estudiosos que alardearam o fim do trabalho tiveram que abandonar as suas teorias. Ele segue essencial como fonte de valor, mas em condições cada vez mais desumanas.
A seleção de filmes de ficção e documentários desta mostra oferece a oportunidade de refletir sobre estas importantes transformações que mudaram a nossa civilização em um curto espaço de tempo. Através do trabalho de realizadores de diferentes localidades do mundo, veteranos e novatos, e suas diferentes propostas de abordagem fílmica, poderemos nos deter em processos que a também nova vivência da passagem do tempo fragmenta.
Assim, os filmes irão nos guiar através dos estertores das fábricas fordistas e tayloristas, às mobilizações sindicais características daquele momento da produção, daí à brutal devastação desse antigo mundo, passando pela incredulidade e desorientação em direção à desmobilização, à precarização, ao isolamento dos indivíduos e a perda do sentimento solidário, com a migração de centenas de milhares de trabalhadores deserdados pelo mundo, e por fim à semi-escravidão com a conivência do Estado e da sociedade.
Ao mesmo tempo, embora o cinema registrado as novas mobilizações a este estado de coisas, contaremos com três dos mais importantes estudiosos brasileiros: Paulo Arantes, Ricardo Antunes e Ruy Braga, pensadores do trabalho que atestam por meio de seus trabalhos que os trabalhadores seguem em movimento. Contaremos com as reflexões de ambos que debaterão com as plateias.
Roberto Gervitz, curador.