China na cabeça – importação de trens

Dois fabricantes chineses de trens elétricos, a CNR e a CSR, concorrentes no mercado mundial, apresentaram ontem, dia 27 de fevereiro, os dois melhores preços na licitação aberta pelo governo do Estado do Rio de Janeiro para a compra de 60 trens para a Supervia. A CNR ofereceu R$ 542 milhões 599 mil pela frota e a CSR R$ 556 milhões 951 mil. Em terceiro ficou a Rotem/Hunday coreana, com R$ 564 milhões 406 mil; em quarto a Alstom brasileira com 646 milhões 800 mil e em quinto a CAF, também com fábrica no Brasil, com R$ 748 milhões 643 mil.

O resultado não surpreendeu os fabricantes brasileiros, que tiveram que incluir nos seus preços o imposto de importação, mais o hedge cambial cobrado pelos bancos sobre o financiamento em moeda estrangeira para os componentes importados. A combinação do imposto e do hedge cambial dá mais ou menos os 16 % de diferença entre o preço da Alstom e o preço da Rotem, porém ainda abaixo dos dois chineses. O governo do Estado do Rio de Janeiro não concedeu nenhum benefício aos fabricantes brasileiros, preferindo optar pelo menor custo.

Os 60 trens de quatro carros deverão ser fabricados em Changchun, onde já existe uma encomenda anterior de 30 trens para a mesma Supervia e de 19 trens para o Metrô Rio. Os trens da Supervia já começaram a ser entregues (há cinco desembarcados), mas os do Metrô Rio estão com um atraso de dois anos.  Há ainda uma outra encomenda de  30 trens adicionais para a Supervia,  que deve ser feita diretamente pela operadora, hoje controlada pela Odebrecht Transporte. No conjunto, somando a frota comprada anteriormente da Rotem, e a previsão de novas aquisições para a Linha 4 e para a renovação da frota do Metrô, o Rio de Janeiro estará perto de 1.000 carros, todos da Coréia e da China.

Os 60 trens chineses virão completos. As tentativas de acordo da Ttrans com a CNR para montar os trens em Três Rios e da MPE com a CSR para montá-los no Rio não prosperaram.

A Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer) divulgou uma nota oficial sobre o caso. Veja abaixo a íntegra:

Nota da ABIFER sobre a licitação dos 60 trens do Rio de Janeiro

Reproduzimos abaixo a notícia publicada nesta data pelo jornal “O Globo”, referente à licitação de 60 trens da Central, no Rio de Janeiro.

“A China Avança – Coluna Ancelmo Gois
A indústria ferroviária nacional foi ontem derrotada para o fornecimento de 60 trens à velha Central do Brasil, numa disputa vencida, de novo, por chineses.
Segundo o secretário Julio Lopes, a proposta venceria mesmo que o governo do Rio admitisse uma diferença de preço de até 15% a favor da nossa produção, “como queria a paulista Fiesp”.
Segue…
A fabricante nacional mais bem colocada foi a Alstom (4°lugar), de origem francesa, atrás de dois chineses e um coreano.
Já a Associação Brasileira da Indústria Ferroviária tem reclamado da “falta de isonomia tributária em relação a chineses e coreanos nas concorrências”.
É. Pode ser…
O fato concreto é que, num mundo em crise, a questão do protecionismo voltou ao debate mesmo em economias mais abertas como a dos EUA.”
É de causar espanto a declaração do Secretário Julio Lopes, que carrega o ranço do bairrismo, inadmissível no século 21.
O mais importante seria gerar trabalho no Brasil e não na China.
Por outro lado, o resultado da licitação apenas comprovou que os pleitos feitos pela ABIFER ao governo do Estado do Rio de Janeiro, e que não foram atendidos, estavam corretos.
Ao aliar-se a falta de isonomia fiscal da indústria brasileira ao câmbio, a proposta nacional não tinha como sair vencedora, como já era esperado.
Bastava que o governo aceitasse a proposta nacional em duas moedas, o que foi permitido à estrangeira, que poderia ter cotado em até três moedas.
Por último, não receber o produto no prazo contratual (o fornecimento de 34 trens chineses em curso já mostra atraso superior a dois anos) resulta em perdas de receita e de imagem para a concessionária, que não são compensadas pela compra dos trens a um preço mais baixo.
A ABIFER continuará sua luta, ao lado da FIESP, da CNI e das demais entidades da indústria e dos trabalhadores, contra a desindustrialização que ocorre, a olhos vistos, no Brasil.

Vicente Abate
Presidente da ABIFER

Fonte: Revista Ferroviária